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Resoluções do Ano-Novo

Mangabeira - mangabeira@ovisnigra.org

Esse ano vou fazer diferente. Vou seguir o séqüito dos tradicionalistas e vou romper os umbrais do ano vindouro como manda o figurino. (Réveillons-nous.) Antes do badalar dos sinos da meia-noite do dia 31, vou trajar branco da cabeça aos pés (sapatos também, estilo Jece Valadão), como reza a boa cartilha do candomblé – e vou segui-la como todo mundo segue, sem saber bem o porquê, apesar de sermos o maior país católico do mundo. Vou vestido de pai-de-santo, contas bicolores ornando o pescoço, depositar flores aos pés da estátua Iemanjá, deusa d’erês, mãe de Orixás, perseguida de Orungã. Vou oferecer uma dúzia de rosas brancas à deusa protetora dos mares, e vou pedir que me conceda um ano repleto de boas ocorrências (apesar de eu não merecê-lo [o ano]), sem me preocupar se meus requerimentos excedem as suas da deusa competências.

Esse ano vou comprar um leitãozinho e vou prepará-lo à pururuca pra cear com a moçada. Não vou comprar frango ou peru ou chester ou faisão (eu como faisão. Você não?), apesar de eu preferir carne de aves, porque não quero nem saber de rangar animal que cisca pra trás. (Por esta razão, cancelarei também minha habitual visita ao meretrício mais próximo.) Melhor um porquinho gorduroso que não mais chafurdará o focinho na lama... Vou comprar um punhado de romã no mercado, não sem antes pesquisar no Google Images o que é?, como é?, pra quê serve?, uma romã, pois que nunca lhe experimentei antes, tampouco ao menos lhe sei o aspecto ou forma. Mas vou lá, comer a frutinha (doce ou azedo?) pra extrair-lhe as sementinhas e guardá-las na minha carteirinha porque quero (e preciso!) muito de dinheirinho no ano futuro.

Falando em dinheiro, esse ano vou tascar uma nota de 20 (melhor uma onça? Hei de pensar grande...) dentro do meu pisante, porque quero copiar o costume árabe que lhe usurpou indelicadamente o nosso povo: dizem que vira pólo atrativo de bufunfa quem pisa em grana na virada do ano. (Dinheiro, pros árabes, aparentemente é como mulher de malandro: se maltratar, gama.) (E não adianta discutir, porque em matéria de dinheiro árabe sabe o que faz.) Tampouco vou me importar de ser moura a tradição, porque o povo brasileiro é pintura de diferentes matizes e eu também quero ser multicolorido. (Réveillons-nous à l’aube.)

Esse ano, ao ouvir o ecoar dos sinos, vou pular, dependendo do costume de quem me ladear, três ondinhas, ou sete, ou onze, e não saberei a razão de fazê-lo, mas ninguém sabe, e todo mundo pula, e eu vou pular também. Vou admirar os fogos de artifício, vou abraçar e cumprimentar os mais chegados, desejando, ainda que minhas promessas sejam permeadas do mais profundo vazio, tudo de bom, feliz ano-novo, viu?, muitas felicidades pra ti e pra toda tua família, que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender.

Esse ano, só não vou usar cueca vermelha, ou fita rosa, por absoluta desnecessidade, porque de paixão e amor eu ‘tô transbordando mermão, vendo baratinho se você quiser. Vou chamar num cantinho a minh’amada, e reiterar-lhe baixinho ao pé d’ouvido meus sentimentos sinceros, amparado pelo som do ribombar da pólvora, e concluirei meu perorar com um beijo apaixonado-barra-sevicioso. Vou fazer como todo mundo, e nesse ano serei um sujeito repleto de pensamentos e atitudes positivas. (Réveillons-nous à l’aube de la nouvelle année.)

Não obstante as novidades, continuarei com algumas velhas praxes. Trespassarei o ano empunhando um cálice de substância alcoólica de procedência qualquer, desimportando a gradação, a cor ou a adstringência. E vou beber até o raiar dos primeiros filetes do sol de 2008, pra só dormir na tarde do janeiro primeiro, e pra ficar de ressaca durante toda a primeira semana seguinte. (E direi “nunca mais eu bebo”, como em todos os anos anteriores de minha breve vida.)

Ah!, não posso esquecer de dizer que vou também fazer minhas resoluções. Como todo mundo. Neste 2008, vou prometer fingir ajudar mais os pobres, não comer mais feit’um glutão (à exceção de separar a gordura da picanha, que se fodam meus tubos arteriais!), beber com moderação, ser mais carinhoso, ter mais paciência, não mais tocar fogo em índio ou espancar prostitutas, dirigir de forma segura, não mais mostrar minhas nádegas em público, não fazer uso dos horários de trabalho para devaneios literários (“o que eu estou fazendo, chefe? Um termo de doação. Vou precisar de uns dois meses pra concluí-lo, ok?”), não dar PT no caro zero cá-eme que meu pai vai me dar, comprar um jeans de 1000 reais, aparecer na coluna social, tentar não ser excomungado, orar pro Jesus traficante, falar menos, escutar mais, escrever p’á caralho, ler p’á caralho, ver menos TV, comprar um iPod, um iPhone, um iBook, um iVibrator e qualquer outro produto que a Apple lançar e virar moda, vou usar camisas com lantejoulas bordadas, assistir blockbusteres, visitar a Ilha de Caras, e elaborar textos mais sutis e calorosos pra que a Confraria seja lida também por pessoas de boa índole moral e adeptos dos preceitos de bons costumes (e não somente por essa choldra de leitores de mente doentia que constitui nosso fiel préstito).

(É: vai ser um desafio. O ano já vai nascendo casca-grossa.)

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Produzido por Del Carajo Produções