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Até uma outra manhã
Mangabeira - mangabeira@ovisnigra.org
Adentram, c’os pés pequenos, os raios da primeira manhã. Experimento o poema de Pound, pois que a minha maior alegria é a certeza de despertar ao lado teu. Acordo como egresso de um sonho, e o mais curioso é que a fantasia permanece: eu, eternamente imerso em profundo sono REM, vivo a realidade idílica de levar a vida ao lado teu. Te observo durante longos minutos, a companhia da manhã de pisadas suaves, os feixes luminosos se mostrando preguiçosamente -- como a espreguiçar eles também. Fito seu descanso e como és linda a descansar, alheia a todo sentimento que a sua placidez me causa. O rosto teu pousado sobre o peito meu me faz querer te balançar e sacudir e, despertando-te bruscamente, recitar de improviso a poesia mais bonita da lavra do meu coração. Em lugar, me guardo em silêncio e quase sem respirar e quase sem me mexer. E em lugar, me guardo em silêncio, e assim me expresso, pois que no vazio das palavras é que te endereço a mais sincera declaração de amor: na quietude, devoto-te meu corpo e minha vida: meu silêncio em comprometimento monocrático.
Os olhos teus abrem-se manhosos, dificultados pelos movimentos da manhã que se imiscui fugidia, por entre as frestas da cortina entreaberta. O seu sorriso se desfaz por um breve milissegundo, o tempo de articular e me desejar um “bom dia” verdadeiro, os olhos ainda fechados, dengosos do despertar conjunto. (E não há como não ser, de todos, o melhor, esse meu dia!) Você se alonga, ainda a cabeça pousada sobre mim, em tentativa de desvencilhar-se da gostosa preguiça matinal, e hospeda nos meus os seus olhos (agora) bem abertos. Seus olhos que, de tão sinceros, se alheiam de ti. (Olhos de retinas eternamente condenadas a refletir a beleza do sentimento.) Abertos, olhos e sorriso, agora. O sorriso teu sintetiza o bem-querer, e nessa imensidão me perco sem importar-me em encontrar. Nunca mais. Tento -- verdade -- relatar-lhe o sentimento que me entorpece a mente, e, impedido, me limito a olhar-te de volta, e, comprimido, me restrinjo a acariciar-te a face, e, apaixonado, me inclino a dar-te o mais terno beijo sobre os lábios. E digo, eu também, "bom dia, meu amor."
E a manhã, em ágeis pés agora, se levanta portentosa, a imitar-te as agitações de gente bem disposta. Você se move pelo quarto, a desenhar pequenos movimentos: a mais perfeita manifestação do sublime. Quero jurar-te minhas impressões, e não posso. Você me olha como quem diz, que foi?, já vestida e a escovar-se os dentes, assim, meio blasé.. Me toma pelas mãos e seu toque já é o ponto alto do meu dia que mal começou. O nosso quarto circunscreve o limite da ternura, onde estamos sós e protegidos, amparados pela certeza única de que aqui dentro somos seres completos e integrados e unidos pela força enormíssima de nós. Temo -- sim, temo -- que o trespassar dos umbrais da porta de madeira materialize a perfídia e os obstáculos e a externalização das intempéries, a tentar desviar-nos do caminho feliz que todo esse tempo viemos trilhando. Você, corajosa, me toma novamente pelas mãos, e diz "vamos", e eu vou, envaidecido pela sua audácia, destemida de todas as eventualidades. E só assim, envolvido pelo cingir de sua mão, me sinto uma bastilha inexpugnável rodrigueana, capaz de enfrentar todos os demônios, pois que me protege o peito o amor teu.
Já não me acobarda o desconhecido, porque ao meu lado tenho a ti. O seu sorriso, em reiterada vez largo, tomando o espaço das palavras desnecessárias, a indicar-me os motivos que afastam tod’a incerteza. E, ao seu lado, desafio a tudo e provoco a todos, porque contigo sou invencível: aí já que não sou um só, mas confluência de seres. A manhã, agora os passos largos e indisciplinados, toma-nos a frente e guia o caminho, iluminando praias de areias finas por sobre onde gravamos eternamente nossos passos. Combato assim mais um dia, por que é ele, o dia, a circunstância que me permitirá a recompensa: o prêmio de, ao resplandecer da lua que aleija o dia espevitado, recolher-me novamente ao aconchego dos braços teus. Porque somos, mesmo no escuro, par de fosfenas reluzentes, desenhando efêmeros diques insulares nas paredes taciturnas que nos cercam, luzindo, um pro outro, nas trevas do amor.
Poderia, assim, deixar falar-lhe o coração. Ou poderia apenas não falar mais nada. E, pelo meu silêncio, confessar-lhe todos os meus segredos. Pois que é quando calo, que revelo minha essência mais recôndita e assim te amo mais, e assustadoramente. Todo momento é momento de falar (ou calar) de amor. E te mando, em boa-noite, meu beijo ainda apaixonado -- através do silêncio das letras.
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